A Lei de Goodhart e o Dilema das Metas: Como Evitar que Indicadores Mal Desenhados Destruam sua Estratégia

 

Vicente Falconi, uma das maiores referências em gestão no Brasil, ensina que “Liderar é bater meta, com o time, fazendo a coisa certa”. A frase soa perfeita na teoria e é repetida em inúmeras salas de reunião. No entanto, na prática, definir essas metas do jeito certo é uma habilidade rara, e as consequências de errar na dose podem ser catastróficas para a cultura e a longevidade do negócio.

Recentemente, Elemar Júnior trouxe um alerta necessário sobre esse tema: existem gestores tão comprometidos com um número que estariam dispostos a destruir a própria empresa para alcançá-lo. A situação fica especialmente séria quando essa meta está atrelada ao bolso, como no caso de bônus e PPR. É preciso discutir a linha tênue entre a alta performance e a distorção da realidade.

O Efeito Perverso: Quando a Medida Vira Meta

O cerne dessa discussão reside na Lei de Goodhart, um conceito econômico que diz: “Quando uma medida vira meta, ela deixa de ser uma boa medida”. Traduzindo para o cotidiano corporativo, isso significa que, ao transformar um indicador em objetivo final, as pessoas tendem a otimizar o número e ignorar o fenômeno real que ele deveria representar.

Se houver um caminho mais fácil ou um atalho para fazer o indicador mostrar sucesso, mesmo que seja um falso positivo, esse será o caminho adotado. É o efeito perverso dos incentivos. O KPI vira uma caricatura e a métrica passa a competir com a realidade. Nesse cenário, a meta “sorri” porque o bônus foi garantido, mas o sistema “chora” porque a operação foi comprometida por decisões de curto prazo.

O Outro Lado: O Risco da Gestão por Instinto

Diante desse risco, a reação natural poderia ser o medo de medir. Mas abandonar as metas ou relaxar no uso de indicadores não é uma alternativa viável. Sem medir, não aprendemos. Sem metas, não avançamos. Se retirarmos os números da equação, cada equipe passa a seguir apenas o seu próprio instinto.

Empresas não crescem de forma sustentável baseadas apenas na intuição. O perigo apontado por Elemar é real, mas ele reside no indicador mal desenhado, e não no ato de medir em si. Precisamos de direção. Uma operação que implora por socorro enquanto os números sobem é um sinal de cegueira estratégica, mas uma operação sem números é um navio à deriva.

A Solução: Governança como Bússola

O caminho para resolver esse dilema é amadurecer a conversa sobre governança. Não se trata de escolher entre usar ou não usar indicadores, mas de desenhar métricas que representem fenômenos reais. O objetivo deve ser criar indicadores que conectem áreas, sustentem decisões lógicas e conduzam a operação na direção certa, sem distorções.

Metas bem construídas funcionam como bússolas que apontam para o norte verdadeiro. O cuidado no desenho da meta é o que garante que a equipe não buscará atalhos fáceis ou ilusões de performance. Quando a governança é forte, a meta clareia o sistema em vez de obscurecê-lo, permitindo que o time bata a meta fazendo a coisa certa, como sugeriu Falconi.

Qual o mensagem que fica?

No fundo, o alerta de Goodhart e as observações de Elemar servem para nos lembrar que métricas são lentes, não motores. Se confundirmos uma com a outra, teremos comportamentos esquisitos e atalhos perigosos. A pergunta que todo líder deve fazer é: você está guiando o sistema ou sendo guiado por ele?

Quando o indicador faz sentido, a meta cumpre seu papel de guiar. E quando a meta guia para a direção correta, o sistema agradece. O equilíbrio está em manter a ambição do resultado sem perder a coerência da operação.

Insights & Takeaways

  • A Lei de Goodhart alerta que medidas transformadas em metas tendem a perder sua validade como indicadores de qualidade.
  • Incentivos financeiros (PPR/Bônus) atrelados a metas mal desenhadas podem gerar comportamentos que prejudicam a empresa a longo prazo.
  • Não se deve abandonar as métricas por medo de distorções; empresas não crescem apenas com base no instinto.
  • A solução está na governança e no desenho cuidadoso de indicadores que reflitam fenômenos reais e não apenas números isolados.
  • Metas devem funcionar como bússolas para o norte verdadeiro, evitando ilusões de performance e atalhos operacionais.

 

Compartilhe este artigo:

Comentários

Participe deixando seu comentário sobre este artigo a seguir:

Subscribe
Notify of
guest
0 Comentários
Oldest
Newest Most Voted
Inline Feedbacks
View all comments

AUTOR

Maicon Reichert
Consultor em gestão de negócios, governança e compras estratégicas, apoiando empresas na otimização de processos e melhoria de resultados.

IA no Desenvolvimento de Software

Nossa proposta tem como objetivo principal ajudar empresas a incorporarem a IA em seus fluxos de desenvolvimento, aumentando a produtividade, a qualidade e a segurança do código.

ARTIGOS EXIMIACO

Planejamento Estratégico

Novos produtos e processos para a transformação digital de seu negócio.

NOVOS HORIZONTES PARA O SEU NEGÓCIO

Nosso time está preparado para superar junto com você grandes desafios tecnológicos. Entre em contato e vamos juntos utilizar a tecnologia do jeito certo para gerar mais resultados.

O seu cadastro foi realizado com sucesso!

Em breve enviaremos a apresentação desta palestra para o seu e-mail.

Seu contato foi enviado com sucesso!

Em breve retornaremos seu contato com mais informações sobre como realizar a sua inscrição na capacitação C# do Jeito Certo. Aproveite para conferir o programa completo da capacitação:

Capacitação
Nova turma: 12/01/2026

C# do Jeito Certo

Garanta qualidade e escalabilidade no desenvolvimento de software.

Domine boas práticas e padrões modernos, criando códigos confiáveis, eficientes e alinhados às melhores demandas do mercado.

A sua inscrição foi realizada com sucesso!

O link de acesso à live foi enviado para o seu e-mail. Nos vemos no dia da live.

Muito obrigado!

Deu tudo certo com seu envio!
Logo entraremos em contato

A Lei de Goodhart e o Dilema das Metas: Como Evitar que Indicadores Mal Desenhados Destruam sua Estratégia

Para se candidatar nesta turma aberta, preencha o formulário a seguir:

A Lei de Goodhart e o Dilema das Metas: Como Evitar que Indicadores Mal Desenhados Destruam sua Estratégia

Para se candidatar nesta turma aberta, preencha o formulário a seguir:

Condição especial de pré-venda: R$ 14.000,00 - contratando a mentoria até até 31/01/2023 e R$ 15.000,00 - contratando a mentoria a partir de 01/02/2023, em até 12x com taxas.

Tenho interesse nessa capacitação

Para solicitar mais informações sobre essa capacitação para a sua empresa, preencha o formulário a seguir:

Tenho interesse em conversar

Se você está querendo gerar resultados através da tecnologia, preencha este formulário que um de nossos consultores entrará em contato com você:

O seu insight foi excluído com sucesso!

O seu insight foi excluído e não está mais disponível.

O seu insight foi salvo com sucesso!

Ele está na fila de espera, aguardando ser revisado para ter sua publicação programada.

Tenho interesse em conversar

Se você está querendo gerar resultados através da tecnologia, preencha este formulário que um de nossos consultores entrará em contato com você:

Tenho interesse nessa solução

Se você está procurando este tipo de solução para o seu negócio, preencha este formulário que um de nossos consultores entrará em contato com você:

Tenho interesse neste serviço

Se você está procurando este tipo de solução para o seu negócio, preencha este formulário que um de nossos consultores entrará em contato com você:

0
Queremos saber a sua opinião, deixe seu comentáriox